raio3X

15/09/2008 17:16

A CRISE NA BOLÍVIA E A GEOPOLÍTICA SULAMERICANA


Seria um equívoco grave não perceber que os métodos de ação empregados pela oposição a Evo Morales na crise em curso na Bolívia revelam-se absolutamente incompatíveis com o imperativo respeito ao estado democrático de direito. É evidente que a precipitação dos acontecimentos vem sendo manipulada pelas elites separatistas, com a prática de atos terroristas, na tentativa de impor demandas ilegítimas e ilegais.

O ponto central do conflito de interesses é a manutenção das desigualdades sociais, através da apropriação das rendas geradas pela exploração de recursos naturais. Segundo dados de 1996, a Bolívia teria até então consumido dois terços das reservas de petróleo e metade das reservas de gás comprovadas à época. E a distribuição de renda no país é historicamente ruim, com grande parte da população vivendo em condições precárias, enfrentando mecanismos arcaicos de exclusão e abandono.

O governo Evo Morales foi eleito com base no clamor popular por mudanças distributivas, particularmente em relação à participação nas rendas geradas pela exploração de hidrocarbonetos e ao atendimento da demanda interna. Portanto, se certos setores da elite de algumas províncias discordam das alterações na divisão dos lucros com a exportação de gás devem combater esta política pelos meios legais e democráticos.

E é indispensável que todos prezem o respeito às garantias do estado de direito, pois os conflitos devem ser negociados em bases pacíficas, sob pena de aviltar-se a própria condição de civilidade, a lógica e a ética. Desse modo, é urgente a condenação da conduta adotada pela oposição a Evo Morales, em face dos claros traços de usurpação e abuso.

Outro equívoco grave seria não perceber a presença de fortes interesses dos EUA na evolução da atual crise boliviana. De saída, é impossível não lembrar que a importância geopolítica da Bolívia tem crescido em razão da transição democrática no Paraguai, bem como da existência de governos não alinhados na Venezuela, Equador, Chile, Argentina, e Uruguai.

A frustração das expectativas de livre utilização da base paraguaia certamente agrava a tensão resultante dos atritos entre a administração Bush e o governo Chaves. E a conjuntura na Venezuela ganha maior relevo diante do crescente isolamento do governo Uribe, intensificado após o esclarecimento da vergonhosa operação que libertou Ingrid Bittencourt.

A utilização dos símbolos da Cruz Vermelha Internacional para camuflar a ação de soldados do Exército da Colômbia na farsa da operação Bittencourt constitui crime de guerra, condenado por convenções internacionais. A comprovação de que tal estratégia criminosa foi previamente planejada e autorizada, em conjunto com a incapacidade do regime de Uribe para aumentar a influência nas áreas dominadas pelas FARC, colocam sérias incertezas sobre o futuro colombiano e os interesses americanos na região.

Além disso, é bom lembrar que as reservas de gás ainda existentes na Bolívia são consideras as maiores da América do Sul, sendo estimadas em mais de 600 bilhões de metros cúbicos. Acresce que as reservas de petróleo, superiores a 400 milhões de barris, são de alta qualidade, bem como o fato de haver uma atividade mineradora expressiva, com exportação de cobre, zinco, prata, chumbo, ferro e ouro. Ademais, vale considerar que as projeções de reservas minerais podem ter sido bastante alteradas com o avanço das técnicas de prospecção e exploração.

É preciso recordar também que a Bolívia vem implementando um programa de estatização de empresas estratégicas, quando não consegue um acordo que aumente a participação acionária do Estado. Mas, os fatores principais provavelmente são a opção do governo Morales por um modelo econômico de desenvolvimento voltado para o atendimento às demandas internas, e a prioridade conferida à integração regional, em detrimento da preferência americana por um acordo continental tipo ALCA.

Assim, uma situação que justificasse uma intervenção “humanitária” na América do Sul poderia servir aos interesses do partido republicano dos EUA, sinalizando uma posição de força, em confronto com outros países da região. Neste ponto, cabe mencionar a nomeação para a Bolívia do embaixador americano que atuou no sangrento conflito separatista do Kosovo. O início da atuação do especialista em separatismo ocorreu alguns meses antes da atual escalada de violência em províncias bolivianas.

Daí, não pode ser descartada a hipótese de que a ampliação da crise na Bolívia pudesse servir à pretensão dos belicistas americanos de legitimar o início de uma presença militar no subcontinente. E o desastre genocida da violência separatista perpetrada nos Bálcãs dá a dimensão da importância do apoio a ser dado ao governo democraticamente constituído da Bolívia, que tem mantido a sábia postura de evitar o confronto e buscar o diálogo.

A reunião de chefes de Estado convocada para esta semana pelo governo do Chile será uma ótima oportunidade para a indispensável sustentação dos verdadeiros interesses do povo brasileiro, vinculados à defesa da estabilidade democrática e à solução pacífica dos conflitos.

enviada por Mario Ramos






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