raio3X

19/08/2008 14:36

IV SEMCINE


A 4ª Edição do Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual da Bahia foi realizada nos amplos espaços do Teatro Castro Alves, em Salvador, no período de 21 a 26 de julho de 2008.

O Seminário promoveu ciclos de palestras e debates com a participação de produtores, distribuidores, realizadores e estudiosos da Sétima Arte, apresentando também uma ampla mostra de audiovisual, com a exibição de películas e vídeos, além de performances de atores, DJs e VJs.

Dentre as inúmeras produções de alta qualidade exibidas, vale mencionar os destaques de algumas das categorias representadas.

Dos curtas de ficção, o destaque vai para a eloqüência discreta e poética de DEZ CENTAVOS, do diretor baiano César Oliveira. A película, com 19 minutos, ambientada em locações no centro histórico de Salvador, apresenta, de forma tocante e sugestiva, a jornada de um dia na vida de um menino que pede trocados nas ruas e esquinas da capital baiana.

Com uma fotografia exemplar, DEZ CENTAVOS apresenta planos de câmara expressivos, utilizando a luz e principalmente as sombras como elementos da narrativa. O resultado é muito convincente e agradável, pois o filme consegue tratar com leveza e profundidade um tema que constitui um dos mais graves dramas da sociedade brasileira.

Dos documentários, o destaque tem que ser a edificante produção digital XUKURU ORORUBÁ, da diretora baiana Marcília Barros. O vídeo, com 15 minutos, mostra a história de luta da nação indígena contra a violência dos posseiros e a infâmia do poder público no estado de Pernambuco.

XUKURU ORORUBÁ exibe uma fotografia de alta plasticidade, em sépia, sendo notável a harmonia das tonalidades de cinza e a excelente definição das imagens produzidas. A obra merece destaque também por constituir uma importante denúncia do continuado massacre das populações indígenas, contrastando com os discursos oficiais das autoridades locais e nacionais. O conteúdo mais relevante é a evidência histórica de que a organização das comunidades e a formação de lideranças constituem o caminho para o resgate da cultura e da dignidade das populações nativas.

No gênero animação, o destaque vai para o surpreendente PAJERAMA, do diretor paulista Leonardo Cardaval. A película, com nove minutos, mostra um jovem índio vivendo situações surreais, que fazem referência ao inexorável e arrasador avanço do “progresso” e da devastação ambiental.

A qualidade gráfica de PAJERAMA, pontuada pela elasticidade dos movimentos e a definição dos traços e texturas, além da extrema beleza das formas e cores, propiciam uma experiência visual marcante. O áudio também é muito bem cuidado, com efeitos impressionantes e ótima trilha. O contraste da pureza natural retratada com a aridez da sociedade do asfalto e do concreto, diz muito sem precisar de nenhum discurso.

Da mostra internacional, o destaque vai para o empolgante e extasiante CAFÉ DOS MAESTROS, do diretor argentino Miguel Cohan. A película, com 93 minutos, aborda a paixão ritual pelo tango, com adoráveis depoimentos e performances de instrumentistas, cantores e cantoras de primeiríssima linha, no auge da glória de suas aclamadas carreiras.

A emotividade transbordante dos depoimentos e manifestações de CAFÉ DOS MAESTROS, aliada ao clima de absoluta fraternidade externado na convivência entre os grandes baluartes do cultuado gênero musical, cria uma atmosfera de sublime leveza. A competência da edição e a excelência da direção musical fazem esquecer que se trata de um documentário. O clímax ocorre ao som de uma primorosa orquestra de tango, em apresentação histórica realizada no Teatro Colón, em Buenos Aires.

Da mostra retrospectiva, o destaque vai para A LINGUAGEM DA PERSUASÃO, do diretor carioca Joaquim de Andrade. Produzida em 1970, a película, com 10 minutos, mantém-se atual ao questionar a crescente influência do marketing e da propaganda na vida moderna.

A abordagem direta e sugestiva de A LINGUAGEM DA PERSUASÃO, apoiada num discurso bem fundamentado, transmite o desconforto do indivíduo diante da banalização da cultura de massas e do condicionamento voltado para o consumismo. E dá o recado sem adotar um tom panfletário.

Finalmente, entre os longas nacionais de ficção, o destaque é o inesquecível NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA, do diretor paulista Reinaldo Pinheiro. A película, com 104 minutos, conta a história de uma família de ladrões de carros, envolvida numa saga cruel de chantagem e tragédia.

A grandiosidade de NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA é revelada desde o início da projeção, com um áudio admirável e uma trilha sonora contagiante. O roteiro é incisivo, articulado e conciso, com cortes precisos e progressão estonteante. A edição é impecável, em especial pelo modo como utiliza sons e movimentos de câmara para compor as cenas.

NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA traz um bônus especialíssimo que é a participação da eterna e adorável Dercy Gonçalves, roubando a cena, como sempre, com sua verve iluminada e hilária. Além disso, o desempenho de todos os atores é excelente, tanto nos momentos de humor quanto nas seqüências mais dramáticas.

E NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA encanta também pela capacidade de sugerir metáforas, que permitem leituras variadas e podem transmitir uma profunda crítica social, sem abusar de discursos políticos. O enredo é pesado e indigesto. Mostra o indesejável. Mas é um filme memorável. Um clássico como os grandes clássicos.

A menção honrosa vai para QUANDO NADA ACONTECE, do diretor baiano João Gabriel. A produção digital, com 75 minutos, filmada em belas locações na capital baiana, mostra o drama vivido por um trocador de ônibus que perde o emprego depois de um assalto.

A fotografia de QUANDO NADA ACONTECE padece das limitações da tecnologia digital em situações de baixa luminosidade, mas apresenta bons planos de câmara, principalmente paisagísticos. O roteiro, que perde a cadência em algumas passagens, conta a história de maneira eficiente, acrescentando a particularidade de entremear depoimentos de personagens reais. E o grande mérito é abordar problemas relevantes, específicos da metrópole, tais como a violência em assaltos a ônibus, a pesca com bombas na Baia de Todos os Santos e a repressão ao comércio informal, tendo como fio condutor a questão do desemprego e do subemprego.

O comentário especial vai para o documentário O GUARANI, dos diretores baianos Cláudio Marques e Marília Hughes. A película, com 20 minutos, aborda a trajetória da histórica sala, outrora centro de efervescência intelectual, desde os tempos gloriosos do clube de cinema, na década de 50 até o completo arruinamento, nos anos 90.

Agregando imagens de arquivo a depoimentos e cenas já da época de decadência e ruína, o documentário vale pela idéia de resgatar parte da memória cultural do povo baiano. Mas peca por não reconhecer a responsabilidade do poder público na extinção do importante espaço cultural, passando a incômoda sensação de pretender dissimular a gravidade dos danos decorrentes de políticas eminentemente anti-sociais.

Esse tema sugere a discussão acerca de eventuais ingerências na liberdade de expressão, condicionadas por relações de dependência entre a produção de audiovisual e os canais de financiamento público. Aliás, um dos pontos altos da sessão de encerramento do IV SEMCINE foi a leitura performática do cordel MENDICÂNCIA OU MECENATO, onde Zezão Castro narra, com muito estilo e graça, o embate verbal entre o crítico de cinema André Setaro e o diretor Edgar Navarro, em debate no Seminário de 2007.

A premiação feita no IV SEMCINE permanece limitada a um único filme, e elegeu o documentário CÂMARA VIAJANTE, do diretor cearense Joe Pimentel. A película, com 20 minutos, mostra depoimentos de fotógrafos veteranos da cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, alguns especializados em recordações para romeiros e outros artistas da fotografia pintada.

CÂMARA VIAJANTE tem o mérito de focalizar um tema valioso, relacionado com o resgate da memória coletiva, mas parece não prestigiar devidamente as manifestações mais populares. A abordagem tem um distanciamento excessivo em relação aos depoimentos apresentados. A fotografia e a edição, bastante frias, contribuem para um clima algo jocoso.

E o desconforto com a premiação do IV SEMCINE pode ser avaliado pelo fato de que o próprio júri sentiu a necessidade de criar um prêmio extra, concedido ao excelente curta de ficção DEZ CENTAVOS.

Outras críticas podem ser feitas ao IV SEMCINE. Por exemplo, a necessidade de distribuição de um material gráfico mais completo, com mais informações sobre as produções exibidas, as produtoras relacionadas e os palestrantes. Ou a falta de um espaço para entrevistas e debates com os diretores e produtores após as exibições. Ou ainda a atitude elitista e deselegante revelada pela organização da festa de encerramento.

A festa foi realizada no terraço do TCA, após a última sessão do IV SEMCINE, deixando ostensivamente de fora todos os comuns mortais, mesmo aqueles participantes regularmente inscritos no Seminário. Se precisava ser uma festa restrita a poucos convidados, deveria ser realizada em outro local. Para evitar o constrangimento daqueles que estiveram presentes na solenidade de encerramento e foram barrados na festa, confrontados com a evidência de que alguns são mais iguais...

Mas as eventuais falhas não diminuem a importância do IV SEMCINE para a produção cultural na Bahia. A discussão dos temas relacionados com o cinema é fundamental para o desenvolvimento das artes em geral. A constituição de canais para divulgação de obras e intercâmbio entre profissionais e estudiosos contribui para incrementar a qualidade das produções. E a mobilização dos indivíduos dá visibilidade às legítimas demandas da sociedade, sendo que um dos frutos já colhidos foi o anúncio de que finalmente haverá um curso de cinema na UFBA.

Que venham mais Seminários. E mais cinema, pra todo mundo...


enviada por Mario Ramos






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