raio3X

25/11/2008 15:14

A CRISE CONCEITUAL E O PARADIGMA GLOBAL

A crise financeira global, que vem causando tanta agitação e perplexidade, constitui a materialização de prognósticos auto-realizáveis, e deveria servir para desencadear uma ampla e profunda mudança de paradigmas.

Nos últimos 30 anos, o mundo vem sendo soterrado sob crescente e inexorável avalanche de dogmas liberais, neoliberais e monetaristas. Desde o advento da era Thatcher, as políticas de desregulamentação e liberalização dos mercados, de redução da intervenção do Estado, de privatização e promoção do Estado mínimo, bem como de precarização do atendimento público às necessidades sociais, têm sido o padrão global.

A globalização liberalizante produziu rapidamente um considerável desastre na economia da Suécia, que em meados na década de 80 enfrentou uma grave crise em seus mercados financeiros, precipitada pela excelência na aplicação do receituário neoliberal. E foi a forte intervenção estatal que evitou o pior e reverteu a situação.

Apesar dos efeitos potencialmente danosos da concentração de renda e da ampliação das desigualdades sociais acarretados pela globalização, esta prática tornou-se hegemônica em todo o mundo, moldando uma nova face da economia internacional, tornando menor a importância do Estado e tolhendo seu poder de intervenção.

A doutrina neoliberal, que rege o processo de globalização, sustenta-se no pressuposto de que a ausência de regulação é o elemento otimizador da eficiência econômica. Assim, o neoliberalismo advoga que promovendo a crescente liberalização e privatização das atividades econômicas, estaria garantido o máximo incremento dos investimentos e da renda, donde adviria, magicamente, a melhoria das condições de vida das populações. E pouca importância tem sido dada às evidências contrárias.

Ironicamente, os mercados financeiros, seara primordial da desregulamentação globalizada, costumam ser os primeiros a evidenciar os desequilíbrios ocasionados pelo excesso de liberalização. A especulação desmedida causa a sobrevalorização dos ativos financeiros. E a percepção do descolamento entre ativos reais e financeiros desencadeia os processos tradicionais das crises cíclicas de superacumulação.

Com o desenvolvimento das atividades financeiras, as versões modernas das clássicas crises capitalistas de superprodução surgem com o estouro das bolhas especulativas, e ganham corpo na forma de crises de demanda. O fator decisivo é certamente a deterioração das expectativas e a manipulação mercenária da histeria coletiva.

Contudo, os processos econômicos da crise não fogem aos padrões de concentração e centralização do capital, de modo que a desaceleração do crescimento é superável. A velocidade do distanciamento das situações de recessão é tão maior quanto menos tardia e insuficiente é a reação das autoridades nacionais das principais economias.

Portanto, o mais lamentável é que a cada novo ciclo de crise o mundo desperdiça a oportunidade de admitir a necessidade essencial da regulação, fiscalização e indução estatal para prover o funcionamento saudável do sistema capitalista. Enfrentar esta questão é imprescindível, pois os aspectos determinantes envolvem a superestrutura conceitual e instrumental das ciências econômicas, políticas e sociais.

Uma abordagem mais pragmática das mazelas relacionadas com as origens e conseqüências das crises cíclicas do capitalismo, exige questionar a contradição entre a desmedida desregulamentação dos mercados e a necessidade do controle de fraudes. A prática de gestão temerária resulta de certa forma estimulada pelo indispensável combate à contaminação sistêmica, e a repetição freqüente das circunstâncias costumeiras molda os conceitos de risco moral e exuberância irracional.

Outra abordagem objetiva da crise global consiste em questionar as falhas dos mecanismos de avaliação de riscos, pois a definição dos coeficientes adequados de alavancagem é crucial para impedir que a acumulação de capital seja indevidamente insuflada pela especulação financeira.

Neste ponto, tangenciam-se alguns temas relativos aos fluxos internacionais de capitais, à macroeconomia global e à geopolítica pós-moderna. Um dos itens elementares nessa discussão diz respeito ao fato de que a ênfase obsessiva na liberalização dos mercados financeiros está relacionada com a competição internacional em torno da alocação dos investimentos financiados pela poupança estrangeira. Outros itens relacionam-se com o financiamento dos gigantescos déficits interno e externo dos Estados Unidos, e seus reflexos na majoração da alavancagem em todos os setores da economia americana e em alguns setores dos mercados financeiros dos países globalizados.

A redução da taxa de juros americana, praticada no início do primeiro governo Bush Jr., ocasionou uma intensa migração de capitais para mercados emergentes. Este movimento tornou necessário incrementar a atração de investimentos estrangeiros para financiar a sustentação do crescimento, o equilíbrio do déficit público e do balanço de pagamentos. O terremoto financeiro foi gestado por meio da promoção da alavancagem crescente, tanto na produção quanto no consumo, aliada ao incremento da bolha imobiliária apontada por Greenspan desde a queda das pontocom, no final dos anos 90.

No entanto, a comunidade internacional ainda não deu mostras mais efetivas da disposição necessária para superar os entraves que ameaçam inviabilizar o progresso. É urgente reconhecer as evidências de que os modelos de desenvolvimento que norteiam a acumulação de capital regida simplesmente pela globalização neoliberal estão provocando alarmantes danos sociais e ecológicos. E este reconhecimento urgente deve ser o início da construção efetiva do desenvolvimento sustentável em escala planetária.

Para começar, é requisito básico colocar de lado as ideologias arcaicas, a fim de permitir que o estudo das conjunturas possa utilizar o instrumental apto a embasar o entendimento da realidade e a interação positiva entre os diversos agentes. Torna-se, então, requisito básico o resgate da dialética marxista, que foi falaciosamente obscurecida pela teoria neoclássica.

Um passo decisivo é colocar de lado as elucubrações relativas às expectativas racionais e estudar mais amplamente os mecanismos de equalização das taxas de lucro. Este poderá ser o caminho para substituir desastres morais, ambientais e humanitários pela construção de um mundo mais equilibrado, menos desigual, com mais dignidade e harmonia, com base na consciência global e na solidariedade internacional.

enviada por Mario Ramos



15/09/2008 17:16

A CRISE NA BOLÍVIA E A GEOPOLÍTICA SULAMERICANA


Seria um equívoco grave não perceber que os métodos de ação empregados pela oposição a Evo Morales na crise em curso na Bolívia revelam-se absolutamente incompatíveis com o imperativo respeito ao estado democrático de direito. É evidente que a precipitação dos acontecimentos vem sendo manipulada pelas elites separatistas, com a prática de atos terroristas, na tentativa de impor demandas ilegítimas e ilegais.

O ponto central do conflito de interesses é a manutenção das desigualdades sociais, através da apropriação das rendas geradas pela exploração de recursos naturais. Segundo dados de 1996, a Bolívia teria até então consumido dois terços das reservas de petróleo e metade das reservas de gás comprovadas à época. E a distribuição de renda no país é historicamente ruim, com grande parte da população vivendo em condições precárias, enfrentando mecanismos arcaicos de exclusão e abandono.

O governo Evo Morales foi eleito com base no clamor popular por mudanças distributivas, particularmente em relação à participação nas rendas geradas pela exploração de hidrocarbonetos e ao atendimento da demanda interna. Portanto, se certos setores da elite de algumas províncias discordam das alterações na divisão dos lucros com a exportação de gás devem combater esta política pelos meios legais e democráticos.

E é indispensável que todos prezem o respeito às garantias do estado de direito, pois os conflitos devem ser negociados em bases pacíficas, sob pena de aviltar-se a própria condição de civilidade, a lógica e a ética. Desse modo, é urgente a condenação da conduta adotada pela oposição a Evo Morales, em face dos claros traços de usurpação e abuso.

Outro equívoco grave seria não perceber a presença de fortes interesses dos EUA na evolução da atual crise boliviana. De saída, é impossível não lembrar que a importância geopolítica da Bolívia tem crescido em razão da transição democrática no Paraguai, bem como da existência de governos não alinhados na Venezuela, Equador, Chile, Argentina, e Uruguai.

A frustração das expectativas de livre utilização da base paraguaia certamente agrava a tensão resultante dos atritos entre a administração Bush e o governo Chaves. E a conjuntura na Venezuela ganha maior relevo diante do crescente isolamento do governo Uribe, intensificado após o esclarecimento da vergonhosa operação que libertou Ingrid Bittencourt.

A utilização dos símbolos da Cruz Vermelha Internacional para camuflar a ação de soldados do Exército da Colômbia na farsa da operação Bittencourt constitui crime de guerra, condenado por convenções internacionais. A comprovação de que tal estratégia criminosa foi previamente planejada e autorizada, em conjunto com a incapacidade do regime de Uribe para aumentar a influência nas áreas dominadas pelas FARC, colocam sérias incertezas sobre o futuro colombiano e os interesses americanos na região.

Além disso, é bom lembrar que as reservas de gás ainda existentes na Bolívia são consideras as maiores da América do Sul, sendo estimadas em mais de 600 bilhões de metros cúbicos. Acresce que as reservas de petróleo, superiores a 400 milhões de barris, são de alta qualidade, bem como o fato de haver uma atividade mineradora expressiva, com exportação de cobre, zinco, prata, chumbo, ferro e ouro. Ademais, vale considerar que as projeções de reservas minerais podem ter sido bastante alteradas com o avanço das técnicas de prospecção e exploração.

É preciso recordar também que a Bolívia vem implementando um programa de estatização de empresas estratégicas, quando não consegue um acordo que aumente a participação acionária do Estado. Mas, os fatores principais provavelmente são a opção do governo Morales por um modelo econômico de desenvolvimento voltado para o atendimento às demandas internas, e a prioridade conferida à integração regional, em detrimento da preferência americana por um acordo continental tipo ALCA.

Assim, uma situação que justificasse uma intervenção “humanitária” na América do Sul poderia servir aos interesses do partido republicano dos EUA, sinalizando uma posição de força, em confronto com outros países da região. Neste ponto, cabe mencionar a nomeação para a Bolívia do embaixador americano que atuou no sangrento conflito separatista do Kosovo. O início da atuação do especialista em separatismo ocorreu alguns meses antes da atual escalada de violência em províncias bolivianas.

Daí, não pode ser descartada a hipótese de que a ampliação da crise na Bolívia pudesse servir à pretensão dos belicistas americanos de legitimar o início de uma presença militar no subcontinente. E o desastre genocida da violência separatista perpetrada nos Bálcãs dá a dimensão da importância do apoio a ser dado ao governo democraticamente constituído da Bolívia, que tem mantido a sábia postura de evitar o confronto e buscar o diálogo.

A reunião de chefes de Estado convocada para esta semana pelo governo do Chile será uma ótima oportunidade para a indispensável sustentação dos verdadeiros interesses do povo brasileiro, vinculados à defesa da estabilidade democrática e à solução pacífica dos conflitos.

enviada por Mario Ramos



19/08/2008 14:36

IV SEMCINE


A 4ª Edição do Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual da Bahia foi realizada nos amplos espaços do Teatro Castro Alves, em Salvador, no período de 21 a 26 de julho de 2008.

O Seminário promoveu ciclos de palestras e debates com a participação de produtores, distribuidores, realizadores e estudiosos da Sétima Arte, apresentando também uma ampla mostra de audiovisual, com a exibição de películas e vídeos, além de performances de atores, DJs e VJs.

Dentre as inúmeras produções de alta qualidade exibidas, vale mencionar os destaques de algumas das categorias representadas.

Dos curtas de ficção, o destaque vai para a eloqüência discreta e poética de DEZ CENTAVOS, do diretor baiano César Oliveira. A película, com 19 minutos, ambientada em locações no centro histórico de Salvador, apresenta, de forma tocante e sugestiva, a jornada de um dia na vida de um menino que pede trocados nas ruas e esquinas da capital baiana.

Com uma fotografia exemplar, DEZ CENTAVOS apresenta planos de câmara expressivos, utilizando a luz e principalmente as sombras como elementos da narrativa. O resultado é muito convincente e agradável, pois o filme consegue tratar com leveza e profundidade um tema que constitui um dos mais graves dramas da sociedade brasileira.

Dos documentários, o destaque tem que ser a edificante produção digital XUKURU ORORUBÁ, da diretora baiana Marcília Barros. O vídeo, com 15 minutos, mostra a história de luta da nação indígena contra a violência dos posseiros e a infâmia do poder público no estado de Pernambuco.

XUKURU ORORUBÁ exibe uma fotografia de alta plasticidade, em sépia, sendo notável a harmonia das tonalidades de cinza e a excelente definição das imagens produzidas. A obra merece destaque também por constituir uma importante denúncia do continuado massacre das populações indígenas, contrastando com os discursos oficiais das autoridades locais e nacionais. O conteúdo mais relevante é a evidência histórica de que a organização das comunidades e a formação de lideranças constituem o caminho para o resgate da cultura e da dignidade das populações nativas.

No gênero animação, o destaque vai para o surpreendente PAJERAMA, do diretor paulista Leonardo Cardaval. A película, com nove minutos, mostra um jovem índio vivendo situações surreais, que fazem referência ao inexorável e arrasador avanço do “progresso” e da devastação ambiental.

A qualidade gráfica de PAJERAMA, pontuada pela elasticidade dos movimentos e a definição dos traços e texturas, além da extrema beleza das formas e cores, propiciam uma experiência visual marcante. O áudio também é muito bem cuidado, com efeitos impressionantes e ótima trilha. O contraste da pureza natural retratada com a aridez da sociedade do asfalto e do concreto, diz muito sem precisar de nenhum discurso.

Da mostra internacional, o destaque vai para o empolgante e extasiante CAFÉ DOS MAESTROS, do diretor argentino Miguel Cohan. A película, com 93 minutos, aborda a paixão ritual pelo tango, com adoráveis depoimentos e performances de instrumentistas, cantores e cantoras de primeiríssima linha, no auge da glória de suas aclamadas carreiras.

A emotividade transbordante dos depoimentos e manifestações de CAFÉ DOS MAESTROS, aliada ao clima de absoluta fraternidade externado na convivência entre os grandes baluartes do cultuado gênero musical, cria uma atmosfera de sublime leveza. A competência da edição e a excelência da direção musical fazem esquecer que se trata de um documentário. O clímax ocorre ao som de uma primorosa orquestra de tango, em apresentação histórica realizada no Teatro Colón, em Buenos Aires.

Da mostra retrospectiva, o destaque vai para A LINGUAGEM DA PERSUASÃO, do diretor carioca Joaquim de Andrade. Produzida em 1970, a película, com 10 minutos, mantém-se atual ao questionar a crescente influência do marketing e da propaganda na vida moderna.

A abordagem direta e sugestiva de A LINGUAGEM DA PERSUASÃO, apoiada num discurso bem fundamentado, transmite o desconforto do indivíduo diante da banalização da cultura de massas e do condicionamento voltado para o consumismo. E dá o recado sem adotar um tom panfletário.

Finalmente, entre os longas nacionais de ficção, o destaque é o inesquecível NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA, do diretor paulista Reinaldo Pinheiro. A película, com 104 minutos, conta a história de uma família de ladrões de carros, envolvida numa saga cruel de chantagem e tragédia.

A grandiosidade de NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA é revelada desde o início da projeção, com um áudio admirável e uma trilha sonora contagiante. O roteiro é incisivo, articulado e conciso, com cortes precisos e progressão estonteante. A edição é impecável, em especial pelo modo como utiliza sons e movimentos de câmara para compor as cenas.

NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA traz um bônus especialíssimo que é a participação da eterna e adorável Dercy Gonçalves, roubando a cena, como sempre, com sua verve iluminada e hilária. Além disso, o desempenho de todos os atores é excelente, tanto nos momentos de humor quanto nas seqüências mais dramáticas.

E NOSSA VIDA NÃO CABE NUM OPALA encanta também pela capacidade de sugerir metáforas, que permitem leituras variadas e podem transmitir uma profunda crítica social, sem abusar de discursos políticos. O enredo é pesado e indigesto. Mostra o indesejável. Mas é um filme memorável. Um clássico como os grandes clássicos.

A menção honrosa vai para QUANDO NADA ACONTECE, do diretor baiano João Gabriel. A produção digital, com 75 minutos, filmada em belas locações na capital baiana, mostra o drama vivido por um trocador de ônibus que perde o emprego depois de um assalto.

A fotografia de QUANDO NADA ACONTECE padece das limitações da tecnologia digital em situações de baixa luminosidade, mas apresenta bons planos de câmara, principalmente paisagísticos. O roteiro, que perde a cadência em algumas passagens, conta a história de maneira eficiente, acrescentando a particularidade de entremear depoimentos de personagens reais. E o grande mérito é abordar problemas relevantes, específicos da metrópole, tais como a violência em assaltos a ônibus, a pesca com bombas na Baia de Todos os Santos e a repressão ao comércio informal, tendo como fio condutor a questão do desemprego e do subemprego.

O comentário especial vai para o documentário O GUARANI, dos diretores baianos Cláudio Marques e Marília Hughes. A película, com 20 minutos, aborda a trajetória da histórica sala, outrora centro de efervescência intelectual, desde os tempos gloriosos do clube de cinema, na década de 50 até o completo arruinamento, nos anos 90.

Agregando imagens de arquivo a depoimentos e cenas já da época de decadência e ruína, o documentário vale pela idéia de resgatar parte da memória cultural do povo baiano. Mas peca por não reconhecer a responsabilidade do poder público na extinção do importante espaço cultural, passando a incômoda sensação de pretender dissimular a gravidade dos danos decorrentes de políticas eminentemente anti-sociais.

Esse tema sugere a discussão acerca de eventuais ingerências na liberdade de expressão, condicionadas por relações de dependência entre a produção de audiovisual e os canais de financiamento público. Aliás, um dos pontos altos da sessão de encerramento do IV SEMCINE foi a leitura performática do cordel MENDICÂNCIA OU MECENATO, onde Zezão Castro narra, com muito estilo e graça, o embate verbal entre o crítico de cinema André Setaro e o diretor Edgar Navarro, em debate no Seminário de 2007.

A premiação feita no IV SEMCINE permanece limitada a um único filme, e elegeu o documentário CÂMARA VIAJANTE, do diretor cearense Joe Pimentel. A película, com 20 minutos, mostra depoimentos de fotógrafos veteranos da cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará, alguns especializados em recordações para romeiros e outros artistas da fotografia pintada.

CÂMARA VIAJANTE tem o mérito de focalizar um tema valioso, relacionado com o resgate da memória coletiva, mas parece não prestigiar devidamente as manifestações mais populares. A abordagem tem um distanciamento excessivo em relação aos depoimentos apresentados. A fotografia e a edição, bastante frias, contribuem para um clima algo jocoso.

E o desconforto com a premiação do IV SEMCINE pode ser avaliado pelo fato de que o próprio júri sentiu a necessidade de criar um prêmio extra, concedido ao excelente curta de ficção DEZ CENTAVOS.

Outras críticas podem ser feitas ao IV SEMCINE. Por exemplo, a necessidade de distribuição de um material gráfico mais completo, com mais informações sobre as produções exibidas, as produtoras relacionadas e os palestrantes. Ou a falta de um espaço para entrevistas e debates com os diretores e produtores após as exibições. Ou ainda a atitude elitista e deselegante revelada pela organização da festa de encerramento.

A festa foi realizada no terraço do TCA, após a última sessão do IV SEMCINE, deixando ostensivamente de fora todos os comuns mortais, mesmo aqueles participantes regularmente inscritos no Seminário. Se precisava ser uma festa restrita a poucos convidados, deveria ser realizada em outro local. Para evitar o constrangimento daqueles que estiveram presentes na solenidade de encerramento e foram barrados na festa, confrontados com a evidência de que alguns são mais iguais...

Mas as eventuais falhas não diminuem a importância do IV SEMCINE para a produção cultural na Bahia. A discussão dos temas relacionados com o cinema é fundamental para o desenvolvimento das artes em geral. A constituição de canais para divulgação de obras e intercâmbio entre profissionais e estudiosos contribui para incrementar a qualidade das produções. E a mobilização dos indivíduos dá visibilidade às legítimas demandas da sociedade, sendo que um dos frutos já colhidos foi o anúncio de que finalmente haverá um curso de cinema na UFBA.

Que venham mais Seminários. E mais cinema, pra todo mundo...


enviada por Mario Ramos



30/06/2007 17:52



raio3X

blog editado por Mario Ramos.


raio3X busca abordar temas de economia e política, a fim de colaborar com a defesa do equilíbrio ambiental e da dignidade humana.

Para tanto, raio3X visa divulgar idéias vinculadas ao desenvolvimento sustentável e à justiça social, com o objetivo de incentivar a construção da igualdade democrática e o exercício da cidadania.

Seja bem vindo (a). Participe dessa luta. Apresente sua visão.


DESTAQUE DA SEMANA (artigo de 30.06.2007)


PAC ATROPELA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


A aceleração do crescimento econômico pretendida pelo governo federal tem apresentado aspectos contraditórios, especialmente em face do descaso para com os requisitos essenciais do desenvolvimento sustentável.

Evidências dessa postura contraditória estão relacionadas com a ausência de iniciativas para erradicação do uso industrial de carvão vegetal, bem como com a desconsideração dos estudos de impacto referentes às hidrelétricas do Rio Madeira e à transposição do Rio São Francisco.

O poder público mantém-se impotente acerca da queima de florestas para produção do carvão vegetal demandado por siderúrgicas e fábricas, ao invés de induzir a substituição dessa matriz energética por outras de menor impacto, como o gás natural ou a biomassa.

Ademais, na contramão da história e do bom senso, alguns setores da administração federal defendem que a prioridade conferida à aceleração do crescimento poderia sobrepor-se aos critérios técnicos relativos à preservação ambiental, particularmente em relação à construção de novas hidrelétricas.

Diante dessa realidade tão adversa, é dever cobrar coerência do governo federal, pois, em recente discurso, o próprio Presidente da República afirmou que as demandas por energia não justificam a repetição de erros como o venenoso lago da hidrelétrica de Balbina.

E é urgente difundir a compreensão de que autorizar a transposição do Rio São Francisco constitui uma decisão desastrosa, lamentavelmente conduzida pelo governo Lula.

É crucial denunciar as mazelas do projeto de transposição e cobrar que seja honrado o compromisso público de realizar amplos debates antes do início das obras. O confronto de idéias permitirá combater a execrada transposição com base no respeito às necessidades da população nordestina, através da divulgação de alternativas sustentáveis. E tais alternativas incluem as soluções relacionadas com o armazenamento da água das chuvas, a existência de mananciais subterrâneos, e a obtenção de água potável por condensação.

É preciso também recordar a negligenciada relação entre o desenvolvimento sustentável e a distribuição de renda, lembrando que o crescimento estribado em obras faraônicas acarreta a concentração da riqueza e a ampliação das desigualdades sociais. Desse modo, é possível perceber que, para privilegiar a acumulação capitalista, a aviltante transposição agride os legítimos interesses da pátria.

O desenvolvimento sustentável deve promover o uso de tecnologias limpas, voltadas para a inserção social dos segmentos excluídos; deve estimular a utilização de energia solar e eólica, bem como de outras fontes renováveis e de baixo impacto; deve priorizar a oferta de alimentos, com apoio aos pequenos produtores e implementação efetiva da reforma agrária; deve investir solidamente em educação e cultura de qualidade, para todos, além de propiciar o aumento da geração de empregos, com o financiamento da urbanização de favelas, agregado ao atendimento da carência habitacional. Tudo isso com rigoroso respeito ao equilíbrio ambiental, aliado ao incremento das iniciativas voltadas para a preservação dos ecossistemas, o aproveitamento econômico do lixo, o reflorestamento e a recuperação de áreas degradadas.
enviada por Mario Ramos






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